
ESTRELANDO: Reese Comacolherdela, Marcos Buffalo
DIRETOR: Marcos Aguas
ANO: 2005
Do modo como eu vejo as coisas, humanos são apenas um tipo de animal extremamente sofisticados (se o processo mental de um ser humano valesse 10 pontos, golfinhos e os mais desenvolvidos dos macacos atingiriam 3 ou 4 no máximo). Ser melhor, no entanto, não nos torna diferentes. O melhor jogador de futebol do mundo não tem uma profissão diferente do zé orelha peladeiro da quinta divisão do campeonado do Amapa. Ele é apenas melhor, mas não diferente.
Uma coisa que dá bastante crédito a esta observação é o fato do quanto o ser humano mudou essencialmente pouco desde a época dos seus avós neanderthais nas cavernas. Queremos a femea mais fértil disponível (e as femeas querem o macho mais dominante possível), queremos abrigo do frio, queremos pertencer a grupo homogeneos que sejam “nós” para enfrentar todos os outros “eles” que estão lá fora, queremos comida, queremos nos comunicar, queremos ficar esparramados a toa em dias quentes e modorrentos.
Alias, diga-se de passagem, como qualquer mamifero cordado.
E quanto você trabalha diretamente com pessoas com baixissima formação intelectual vê que as pessoas realmente são apenas animais inteligentes, e algumas delas tem que ganhar o adjetivo “vagamente”. Tanto é que a psicologia para treinar uma criança, ou diabos, mesmo um adulto, não é tão diferente assim do que comprovadamente funciona com animais

Algo como isso.
Outra caracteristica marcante do ser humano é que somos de longe a mais social de todas as outras criaturas. Ao contrário dos passaros, temos intrincados rituais sociais com mais funções além do acasalamento imediato passando em muito o nivel de organização social que se encontra em insetos como formigas e abelhas. Acredite, eu trabalho com burocracia e posso te dizer que nenhuma formiga teria inventado isso… Mas eu dizia que somos criaturas sociais e precisamos fazer parte de um grupo tanto quanto precisamos nos expressar.
Quando o homem da caverna queria se expressar ele desenhava as coisas que ele conhecia nas paredes com morango silvestres, sangue de bufalo e pasta de aipim. Ou então porque ele estava tentando explicar alguma coisa a um colega particularmente burro e chegou ao ponto de “ta claro assim ou quer que eu desenhe, sua anta?”

As vezes eles apenas tinham chá de cogumelo e tempo demais em suas mãos
Da mesma forma, pouco mudou o modo que as pessoas encaram o exótico e selvagem mundo lá fora. Quando caia um raio o homem das cavernas não sabia que porra era aquela, batimá. Então a unica explicação que poderia fazer sentido para ele é que havia um homem morando em cima das nuvens e que jogava aquilo quando ele ficava puto (porque é algo incrivel e barulhento e assustador, tem que ser produto da putice de alguem). Com efeito, não é exatamente estranho hoje pessoas terem medo de raios porque o instinto pré-histórico de pavor e deferencia ainda está lá. Mas voltando ao homem das cavernas, ele então deduziu que deveria agradar ao homem das nuvens para que ele não jogasse uma dessas coisas na sua cabeça de cro-magnon – o que é um pensamento bastante razoavel, uma vez que voce assume os parametros que os definiram como verdadeiros. Nascia assim a primeira religião do mundo. o tenhomedodelevarumraionacabeçaismo.
Aproximadamente 100 mil anos depois, como tudo no ser humano, poucas coisas nas suas diretrizes primitivas mudaram. O cara que mora em cima das nuvens tem outro nome, os raios agora são outra coisa e os rituais são mais e mais complexos. Mas em essencia, em essencia mesmo, ainda somos os neanderthais assustados querendo no fundo só continuar nossa vidinha de comida, reprodução e sonequinha e esperando que o homem do céu nos esqueça para que possamos fazer isso em paz. E digo com toda sinceridade que se pode dizer, não há nada mais humano do que isso.

Humanos, enfim.
Sabe, existem muitas coisas dificeis em ser ateu. A falta do conforto da figura protetora onipresente, toda a coisa “somos um acidente bioquimico soltos numa pedra girando em torno de uma bola de gas entre o nada e o lugar nenhum” e principalmente a coisa do “life sucks, then you die”. Pessoalmente a vida não ter proposito ou sentido me assusta mais do que a coisa dela acabar – embora históricamente o ser humano parece muito mais preocupado em viver para sempre do que sacar o que fazer com a vida. Curiosamente nunca ouvi uma boa resposta para o que diabos alguem pretende fazer durante todo o maldito resto da eternidade sem enloquecer de tédio e tentar esfaquear Deus no olho, mas isso é outra história.
Mas o que realmente me incomoda em ser ateu é a falta da coisa social. Vê, não a coisa de pertencer a um grupo homogeneo – para isso existem times de futebol se mais nada – e sim a coisa de poder falar sobre o que você pensa, expor como você vê o mundo. Isso é tão natural e intrinseco ao ser humano que chega a doer que seja um direito negado. Claro, voce pode sempre escrever num blog que ninguém le, mas isso meio que não resolve a questão. Tenho certeza que o neanderthal pintor chamava todos seus amigos da caverna proximos para ver o alce que ele desenhou… ou o babuino com uma ereção, ele não desenhava tão bem assim e era dificil dizer.
Voltando ao meu ponto, a questão é, sim, claro que você pode falar sobre o que pensa, sobre como vê o mundo, sobre o que acha da vida, do universo e de tudo mais. Poder você pode. Mas isso torna você um babaca idiota. Sério, é meio que o que Richard Dawkins faz da vida e ele é um idiota constrangedor.

Obviamente que pode ter ocorrido a possibilidade de falar com outros ateus a respeito disso, mas sério, até hoje não conheci um que não fosse um babaca cuzão. Olha que me fazer sentir vergonha alheia é um dom raro, mas ateus possuem este dom. Pessoas cujo maior ORGULHO na vida é entrar na fila das crianças que querem sentar no colo do papai noel no shopping pra explicar porque papai noel não existe. Sério, que tipo de babaca faz isso?

“Conhecimento deve ser buscado e não imposto, pois do contrário você apenas estaria trocando um tipo de prisão por outra” – Ezio Auditore di Firenze
Honestamente eu entendo porque as pessoas tem fé. Mesmo. E entendo porque isso é importante para elas, porque mesmo no fundo elas sabendo como o mundo realmente funciona, elas precisam dizer para si mesmas certas coisas para conseguir aguentar e seguir em frente. Eu honestamente entendo e respeito isso. É realmente importante para elas, então fine, ok. Por isso eu não discuto religião, por isso eu não falo sobre o que eu penso da vida, do universo e tudo mais. Porque é ofensivo. Porque é cruel tirar a esperança das pessoas sem dar nada em troca. Porque é imaturo.

“O que a senhorita Kaoru diz é uma mentira na qual apenas quem nunca
matou pode acreditar.Mas, mais do que uma verdade amarga como essa,
este servo prefere as doces mentiras da senhorita Kaoru” – Kensin Himura
Dito isso, eu realmente não poderia me importar menos com o que as pessoas acreditam ou deixam de acreditar. Sério, go nuts. Desde que não respingue em mim, beleza, ok
Eventualmente, no entanto, por mais que eu tente ser neutro e me manter longe da discussão, acaba respingando em mim. E é aí onde entra esse filme “fofinho e inocente”.
“E se fosse verdade” é uma comédia romantica baseada no livro homonimo. E por ser uma comédia romantica voce ja sabe como termina assim como sabe para que tipo de publico foi escrito: mulheres que acham que relacionamentos e romance tem haver com magia, destino e blablabla. Um único dia como homem as faria ver que não tem nada magico ou mistico na coisa da conquista, mas até aí, assim como conjuradores e combatentes em D&D, homens e mulheres não estão jogando o mesmo jogo.
A grande pira desse filme é que Elisabeth era uma médica mary-sue ubber fodona e incrivel, que era tão legal e tão boa que não tinha tempo pra sua vida. Trabalhava turnos de 26 horas direto por 2 minutos de descanso salvando velhinhos, tuberculosos e leichimaniosos. Honestamente eu nem sei que diabos é leichimaniose, mas o nome é legal pelo menos.
Ai quando finalmente quando sua irmã a convence que tava na hora de provar o vai-vem da piroca ensandecida e conhecer um homem, ela sofre um acidente e morre.
Enquanto isso, no lustre do castelo, o viuvo de coração partido Zé (esqueci o nome dele, whatever) esta procurando um apartamento para fazer seu novo ninho da solteirice suprema. Após muito procurar sem sucesso um apartamento pra gente normal em São Francisco (se tem algo que eu aprendi sobre essa cidade é que ela é composta apenas por gays e ladeiras… não necessariamente neste ordem) o destino joga na cara dele, literalmente, o apartamento em que Elisabeth morava antes de bater com as dez.
o que Zé não esperava era que o fantasma da Betinha resolvesse brincar de Besouro-Suco e achasse que ainda morasse no apartamento. Juntos agora Zé e sua nova companheira de quarto sem atributo de constituição vivem altas aventuras, se apaixonam, Lizzie re-ensina Zé a viver e blablabla. Insira doses diabétizantes de açucar aqui, incluindo uma cena de “amor sobrenatural”. Sim. Eu sei.

Se fosse só isso, sério mesmo, seria bonitinho. É um filme bem feitinho, bem amarradinho, com momentos engraçadinhos, a atuação da Reese Whiterspoon como “chatinha adoravel” está muito ok e o Mark Rufallo como Zé passa bem a idéia de cara comum com quem eu posso me identificar e logo gostar.
Não foi um filme feito pra mim, nota-se isso pela ausencia de dinossauros, mas ok, eu consigo aceitar as diferenças e viver com isso.
SE fosse só isso, eu nem estaria escrevendo esse texto já que seria só um filme ok – não realmente ruim, mas nada awesome também
O problema é que a trama se complica. Elisabeth na verdade… não está morta!
Lizzie está em coma! Oh! Vê onde isso vai dar? Quer dizer que há um caminho para os dois ficarem juntos para sempre (ou até subir os créditos) sem envolver Lizzie incorporar a Whoopie Goldberg ou Zé cometer um detalhado seppuku (felizmente não é um filme do Lar Von Tier). Há muita felicidade neste caminho!
Mas então, como boa comédia romantica, algo terrível vai acontecer que os separará para sempre a menos que o poder do amor (e do homem correr muito atrás enquanto a mulher não faz porra nenhuma) poderá mante-los unidos!
Acontece que como médica ubber foda, Lizzie era a favor da eutanasia e deixou isso por escrito, e agora sua irmã vai autorizar que ela desligue os aparelhos e assim Lizzie vai morrer e eles não ficarão juntos para sempre! OH NOES!

Assim é mais uma ardua tarefa para o poder do amor salvar Lizzie e garantir um final feliz para todos! Yay! Felicidade e açucar for everyone!
…
Mas espera um minuto aí… deixa eu te perguntar uma coisa. Uma coisa bastante pessoal. Você já teve alguém realmente próximo a você em coma? Eu digo coma de verdade, não do tipo “uau, dormi até o meio dia, estava em coma”. E não, coma alcoolico não conta, engraçadão. To falando de verdade, do tipo “essa pessoa não vai mais acordar e na eventualidade de acordar não vai ser muito melhor do que um pedaço de nabo… to brincando, o nabo ainda vai ser neurologicamente mais desenvolvido que ela”. Sabe como é essa sensação?
Se você tiver muita sorte, a resposta vai ser “não, não faço idéia”.
Bem, eu posso te dizer que não sou uma pessoa de sorte.
E sabe qual a pior coisa de ter alguém que você ama em coma? Não é tanto pela pessoa, mesmo. Você entende que ela já foi, já elvis, sentou na graxa, ta na terra dos pés juntos, kaputz, arrivederci, sayonara, ciao bella! O que realmente dói, o que arrasa mesmo é o estado que fica a família. Sabe, as outras pessoas que você ama. Que ficam esperando um milagre, que ficam esperando uma coisa mágica que não vai acontecer.
A esperança consome muito mais do que a perda, acredite.
Quando todos os exames dizem que o melhor que pode acontecer a esta pessoa é ela simplesmente morrer, porque do contrário as ficarão realmente feias e deprimentes… você então ouve alguém dizer que “as maquinas não podem saber tudo”.
Que, surpresa, surpresa, é exatamente o tipo de frase que é dita neste filme “inocente e bonzinho”. Propaganda idiota vendida a rodo. Filmes idiotas como esse vendem o fato de que o poder mágico do amor pode superar fatos. Em situações normais eu não me importaria com isso, mesmo, as pessoas fazem o que quiserem das suas vidas e não é da minha conta. Não é problema meu. Mas quando pessoas realmente importantes pra mim sofrem inconmensuravelmente por causa desse tipo de propaganda “inocente e boazinha”, bem, então eu diria que é sim meu problema.
Mas vá lá, talvez eu pudesse viver com a coisa do “poder magico do amor mimimi”. Ok, eu posso. Mas a clara propaganda contra a eutanasia que é esse filme é algo que realmente faz eu ainda sentir alguma coisa alem de “bah, não é problema meu”. Eutanasia é uma solução digna e honrada para corpos cuja unica função neste mundo passa a ser sofrer e gerar sofrimento. É a escolha entre ser uma pustula inerte de dor e sofrimento por anos a fio, ou ter um fim limpo e digno e poupar ANOS E ANOS de sofrimento da sua familia.
Então não, eu não posso endossar uma propaganda “inocente e bonitinha” cujo unico proposito é trazer sofrimento as familias. Sim, eutanasia É uma coisa maravilhosa e faz muito bem a todos. NÃO, pessoas com meses de coma não acordam sem uma sequela sequer e muito menos seus fantasminhas não saem voando por aí pedindo “por favor não me mate”.
Alias, maldito legado nojento do Espiritismo. veja, como eu disse antes eu apóio que as pessoas tenham uma religião. é importante e torna a vida mais fácil. Não é verdade, claro, mas a verdade é um fator irrelevante perto dos beneficios. Eu inclusive entendo os fanáticos religiosos – a bem da verdade eles fazem bem mais sentido do que os “normais”, porque se é pra considerar essa porra toda verdadeira então é pra levar a sério MESMO essa coisa.
A única exceção que eu não consigo fazer no meu “ah, que gracinha viu” é quanto ao Espiritismo. Esse bando de abutres covardes predam justamente pessoas vulneraveis emocionalmente. Eles se refestelam em cima da dor, do desespero e da fraqueza alheia em troca de poder (em vários niveis, nem estou falando de dinheiro aqui) e de paz interior (no melhor estilo “estou fazendo minha parte”). O Espiritismo é um reduto de monstros covardes que não hesitam por um instante sequer em se alimentar da dor e do desespero de quem perdeu alguém querido, e isso é das coisas mais vis e NOJENTAS que se pode fazer.
Quer explorar pessoas? Beleza. Mas porra, tenha pelo menos a dignidade de fazer isso com adultos que saibam o que estão fazendo, merda. E não se aproveitar da dor e do sofrimento de quem perdeu alguém pra afirmar sua autoridade dizendo que fulaninho está num lugar de muita luz, de paz e que escreveu uma carta com sua receita de donuts favoritas. VÃO SE FODEREM SEUS CALHORDAS CRUÉIS!

Sério, porque não pegam alguém do seu tamanho?
…
Ah bem, whatever…
… seja como for, alem do filme ser uma propaganda de duas horas contra algo bom e dignificante como a eutanasia, tem outro aspecto pior ainda: a doação de orgãos. Porque para se extrair orgãos de um cadavri vivo é necessária confirmação da morte encefalica. Ok, coma e morte encefalica são duas coisas muito diferentes e qualquer médico que só assistiu House na vida sabe diferenciar.
O problema é que a propaganda “estou viva e tem um fantasma de eu andando por ai” respinga nesse aspecto também. Com que segurança você pode autorizar doar orgãos de alguem que voce ama (o que nunca é fácil por si só) quando esse lixo de propaganda diz que “as maquinas não sabem tudo e temos sempre que confiar no poder do amor e do aperto de mãos”?
Sério, você autorizaria esse tipo de coisa quando a propaganda martela na sua cabeça que a medicina não entende porra nenhuma e o mundo é magico e maravilhoso se voce bater seus calcanhares tres vezes e dizer que “não há lugar como nosso lar”?
E enquanto lixos como esse vendem sua propaganda para mulherzinhas (que são apenas mais de metade da população, ta-da), pessoas que realmente precisam de orgãos que não servem mais pra porra nenhuma estão com sua vida interrompida, sofrendo (não raras vezes fisicamente mesmo, com putas dores lancinantes) e esperando a boa vontade da srta. cuzãozona aí que quer se agarrar num pedaço de carne que pra ela não vai servir pra mais nada porque foi martelado na cabeça dela repetidas e repetidas vezes que “ah, vai que o poder do amor supera tudo e comigo é diferente porque se eu desejar o bastante vai ser verdade”.
Até esse ponto era só engraçadinho. Depois disso já é monstruoso e cruel.
É como aquele livro/filme “O Segredo”. Não tem nada errado ter pensamento positivo, mas quando o cabra desiste de procurar emprego e fica em casa só pensando positivo, você sabe que a merda deu no ventilador. E como eu sempre digo, se fosse só com ele, beleza, cadum, cadum, cada um é responsavel pelas proprias escolhas (por isso eu sou completamente a favor da liberação das drogas… em parques fechados onde as pessoas não pudessem levar as consequencias das suas merdas para mais ninguem). Mas quando isso começa a fodelançar a vida das outras pessoas, bem, aí tem um problema configurado.


No fim, é um filme bonitinho com uma mensagem completamente egoista, idiota e ordinária, e que vende uma propaganda não só estupida, como cruel no sentido mais puro da palavra.
E dizer que eu vi uma comédia romantica cruel e má, em sua própria essencia, é um dos maiores passos para poder dizer que eu já vi tudo na vida. Mesm0.





























































“Não olha pra trás agora, mas tem uma torradeira me seguindo…”

![[fat-thin.gif]](http://ittw2.files.wordpress.com/2011/11/fat-thin.gif?w=300)
Cê também não se ajuda, né Vinicius?

Que diabo de bruxaria é essa?










E pra encerrar, liberte o grito que estava na sua cabeça desde a primeira imagem do post, admita.
